segunda-feira, 5 de março de 2012

O que vem depois do amor?

O sorriso foi arrancado do meu rosto. Só me vejo, se é que não fiquei cego, pelos cantos, quase calado, só conversando por dentro, comigo mesmo. Como fui tão feliz e agora não sou mais. Como amei, fui amado e como agora o coração rasga de saudade, de remorso, de dor.

Nada tem sentido, para nada tenho motivação, não adianta procurar nos íntimos e nos ínfimos, a resposta está clara e a poucas razões de minha razão: é a falta que você me faz. Você me faz mais falta do que eu a mim mesmo.

O coração é a parte que mais dói. É uma dor incrível, que nenhum analgésico, químico ou natural, consegue ao menos suavizar. Quanto mais amor você vê, mais amor você quer dar, e fica sufocado.

Nada adianta. Tentar dormir é convidar os pensamentos a se transformarem em sonhos, e nos sonhos você está. Tentar trabalhar é convidar os pensamentos a se transformarem em realidade, e na realidade, você também está.

Escrever é fazer arte, e nas artes, você está. Ficar à toa, não dá, porque nessas horas é que eu sempre gostei de me lembrar de você. Mas as lembranças agora doem, doem muito. Separar sem deixar de amar deve ser dos piores sentimentos.

Tudo é verdade. Existem rancores mal tratados, discussões mal discutidas, desentendimentos aleatórios, desconfianças baratas, que, quando alimentadas ficam caras, caras feias e desânimo. Mas, acima disso tudo, existe o amor.

E ele é o que mais faz doer. Exatamente o amor, que deveria ser o consolo, nos faz sofrer. Mas, contudo, ele existe e nos faz sentir o coração quase saindo pelos orifícios. Coisas de cinema têm que ter representações de cinema, finais de cinema e voltas de cinema, ou não.

Ah! Se o tempo voltasse, Ah! Se pudéssemos corrigir todos os nossos erros. Como seria bom. Mas aí não haveria erros, e assim não haveria o que corrigir. Mas o amor? Este existe e sempre vai existir, incorrigível, precisa ser vivido!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cony, Elizabeth, Maniqueu e a Semana de Arte Moderna

Assim como vários intelectuais da época e quase nenhum dos dias atuais, Carlos Heitor Cony ousou criticar a Semana de Arte Moderna de 1922, exatamente nesta semana de 2012, 90 anos depois. A diferença de Cony para os intelectuais de 90 anos atrás está exatamente nas nove décadas. Antes, o dito modernismo era “moderno” demais e podia ser criticado, como foi, duramente, por Monteiro Lobato, o maior nome da literatura brasileira até então. Hoje, as críticas de Cony soaram mal. Os argumentos dele, nascido apenas quatro anos depois da Semana, são balizados e baseados em narrativas reais, mas soaram mal. Por que?

O detalhe é que estes 90 anos elevaram a Semana de Arte Moderna a se tornar uma verdade absoluta. O mundo é cheio delas. Quem ousa confrontar uma verdade absoluta, ainda mais uma que influenciou Caetano Veloso, o intocável da MPB? Quem ousa falar que Adolf Hitler era cheio de virtudes na mesma que proporção que Gandhi era de defeitos? Quem ousa trazer à tona o lado humano destes mitos, seja da maldade ou da bondade? São mártires. São verdades absolutas. Quem ousa comentar que a Rainha Elizabeth não é feita de ferro? Tem gente que prefere dizer que ela não é dama. Ela nasceu no mesmo ano de Cony. Estão quase fazendo 90 anos de idade. E não estou nem falando de Margaret Thatcher.  

São assim as verdades absolutas, taxativas. Ou alguém acha que a Seleção Brasileira não mereceu ganhar a Copa de 70 ou que a de 94 mereceu ganhar? Você se arrisca em defender sua opinião? É a lei do 8 ou 80, sem variações, sem percalços. É a lei de Maniqueu. O que é bom é bom, o que é mau é mau, sem variáveis. É a lei do estereótipo. Ninguém aqui tem dúvida de nada. Nós sabemos tudo. A Semana de Arte Moderna é intocável. Afinal de contas, foi nosso diálogo mais próximo com a arte feita na Europa até então. E se veio da Europa é bom. É assim? Quem duvida? Cony. E talvez a Rainha Elizabeth.

Quem aí que não gostava de ouvir Whitney Houston cantar, de assistir a Michael Jackson dançar ou a Ayrton Senna correr que se manifeste. Eles construíram a carreira em cima de dúvidas e depois que viraram verdades absolutas pararam de produzir, já perceberam? Mas, por favor, isto não é nem verdade direito, quanto mais absoluta. Entre todas essas mentiras, o nosso único alento é que Carlos Heitor não chegou aos 90 anos e por isso deve falar muito ainda. Ainda bem!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Depois da meia-noite

Assisti a “Meia-Noite em Paris” ao lado do meu guarda-chuva. Woody Allen acha que gostamos mais do passado que do presente pelo simples fato de não aceitarmos as inconstâncias da vida. Já Gertrude Stein crê que o papel do artista é sugerir espaços para os vácuos e não apenas aceitá-los.

Indaguei meu guarda-chuva sobre gostar mais do passado. Não do passado distante, como Allen indagou, mas do passado vivido. – Eu queria ter sido jogador de futebol. – Mas hoje você é um homem das letras, ou pelo menos tenta ser, fala inglês e assiste a filmes do Godhard. – Mas eu queria. 

O detalhe é que o jogador de futebol ficou no passado. Então, é isso que eu queria ser. Meu guarda-chuva me falou o seguinte: - O passado leva muita vantagem sobre o presente, porque ele é estático e imutável. O passado não gera angústias, no máximo culpas superadas. O passado é seguro, não é instável como o presente. No passado você não pode mais se magoar. Acreditar no “se” é negar o “é”. Ser jogador de futebol, por exemplo, traz muitas angústias também. Pergunte para quem é. Mas para quem esse desejo ficou apenas no sonho, a falsa ideia de que poderia ter vivido uma vida melhor se sobrepõe à realidade, justamente porque não é a realidade.

Fiquei olhando bastante tempo para meu guarda-chuva. Ele continuou: - Esse tipo de raciocínio é a mesma coisa de você querer morar em outra cidade ou achar que a mulher de seu amigo é mais bonita ou a casa do vizinho é melhor. Óbvio que existem mesmo cidades melhores que outras, mulheres mais bonitas que outras e casas mais agradáveis, mas para tudo dependemos de interpretações. Quando você coloca na balança a realidade e uma idealização da realidade, claro que a realidade pura e simples vai perder, porque ela foi testada, a idealização não.

O guarda-chuva continuou sendo enfático e cortando meus ouvidos: - Quando você diz que a mulher do outro é mais interessante, você não viveu com ela, simplesmente a idealizou. Assim sendo, ela leva uma grande vantagem sobre sua própria mulher, que para você é real, com qualidades e defeitos, que você ainda se achou no direito de identificar. A cidade tal é melhor que a sua, porque você não viveu lá. Talvez só visitou como turista, assim como tempos remotos, que você só conheceu através de filmes e livros. A casa do vizinho é cheia de rachaduras, mas você só a enxerga por fora. Então, concluiu o guarda-chuva, saiba viver o presente, para no futuro você ter saudade do passado.

- Ótimo, falei com meu guarda-chuva, você decifrou tudo e resolveu minha vida. Ele respondeu que não consegue resolver nem a dele, quiçá de outrem, e finalizou dizendo que tem uma saudade apertada de uma sombrinha, que paquerou no colégio, e que estava cansado da vida que tem. Comecei a achar a conversa muito chata e ficar com saudades de conversas anteriores que já tive com meu boné, muito mais fluente que meu guarda-chuva. Andei, voltei e me lembrei que o último guarda-chuva que tive eu ainda era garoto e que ele era mudo.    

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A falta de Ali Babá e a eternidade

Seria pelo fato de sermos perecíveis o motivo de tanta ganância? Será que se fôssemos imortais ou se o calendário não tivesse sido inventado, permitiríamos o tempo passar com mais naturalidade? Será que o fato de conheceremos a morte e sabermos que temos poucos anos de vida nos torna ansiosos para ter uma existência marcante? E dependendo da maneira que interpretamos isso, fazemos coisas tão absurdas? E por tanta gente fazer coisas tão absurdas essas coisas deixam de ser tão absurdas? Será que o absurdo é achar alguma coisa absurda?  

Será que temos mesmo que ser nós contra o resto? Que temos que nos fechar em família e amigos e lutar contra as outras fatias do mundo e ainda correr o risco de dissabores mesmo em seu antro, seu reduto? Será que não existe pessoas que descobriram outra maneira de viver? Existe.

Será que temos que comprar tantos lanches de nossa madrasta para sermos felizes? Já dizia o conto de Ali Babá que o ouro pode, e deve, ser dividido. Os 40 ladrões ficaram tão apavorados em dividirem com mais um que acabaram todos morrendo. Não era melhor se solidarizarem com a parte em excesso e abrirem mão do segredo?

40 ladrões e o Ali Babá. 41 vereadores em Beagá. Faltou o Ali Babá, com seu amigo Robin Hood, para nos contar o segredo daquele cofre cheio, das festas e dos lanches. Faltou o Ali Babá para libertar as escravas, para desafiar o perigo, para entregar o capataz. E faltou a Morgiana para ludibriar o chefe, para achar os desenganados e desmascarar os mascarados. Faltou Noé para salvar as raças. Faltou Dom Quixote para segurar o florete e invadir a cúpula.

Será que o medo de perder um tempinho da nossa vida tão curta anestesiou as pessoas, que se tornaram tão permissivas? Será que o receio de acreditar que nada adianta amoleceu os corações tão sofridos, que ficamos, assim, passivos? Será o nariz de palhaço e as redes sociais tão eficazes? Será que é a mídia? A mídia não é só o retrato da sociedade?

Como tanta gente fala mal de um programa que é tão visto assim? Como tanta gente critica os lanches da madrasta e continua depositando suas esperanças nas mesmas pessoas ou pelo menos nas mesmas promessas? Por que os enteados continuam agindo tão desrespeitosamente? Será que eles não enxergam o tempo que estão perdendo? Será que isso é a eternidade?   

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Existe amor no teatro feito em BH

Quando a princesa exclama, num domingo de sol, às 15 horas, sentada à uma mesa de boteco, que precisa trabalhar e que ama isso, é hora de os súditos refletirem. Entre Julietas e princesas, uma verdade é clara: está cheio de amor o teatro feito em Belo Horizonte. Não que não tenha nas outras cidades, mas o que importa para nós é a capital do uai.

É com amor que essa turma que preenche os palcos da cidade trabalha. É com amor que eles enfrentam figurinos, plateias sedentas, textos complexos ou não e aceitam o desafio de fazer arte, ou seja, emocionar, o que é um terreno dos mais acidentados possíveis, abstratos. É aí que está o amor.  

O amor está em dar e correr o risco de não receber. Está em abrir mão de si mesmo e se personificar em almas alheias, reais ou fictícias. De ver tudo com os olhos da arte. De abrir mão de domingos no boteco para ir trabalhar sorridente e satisfeita, em êxtase. De querer atuar e atuar mais, não importa o quão desgastante foi, afinal a próxima performance pode ser melhor. De abrir mão da coroa e do Romeu.  

Do artista espera-se a esperança, mas também a dor, o desapontamento. Espera-se alegria, intensidade e tristeza. Espera-se que ele grite, que ele mate, que ele morra ou monte nas costas de um jumento e se deixe levar. Os simples mortais acompanham os passos da arte, como se participassem dela. Mas como assim? Os simples mortais são a alma da arte, o motivo da arte.

Neste terreno não existe vencedores e vencidos, não existe gregos e troianos, romanos e otomanos. A Constantinopla está no furor, no sangue que você sente correr, na angústia de não ter o que dizer e na falta de preocupação em ter hora certa.

Pois é assim: sentir o tapa na cara da princesa e trabalhar com amor é tarefa difícil. Acompanhá-la pode ser um paliativo mais próximo e eficaz. O que importa nisso tudo é o que se vive na hora, não o que se absorve. Ninguém sabe se está aprendendo ou ensinando, os dois ao mesmo tempo ou nenhum dos dois, e nem deve saber. O importante é viver e perceber a vida. Existe muito amor no teatro feito em Belo Horizonte, é preciso reconhecer isso.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Brasil brasileiro

O povo brasileiro está tão sem escrúpulos que já imagino uma comunidade num futuro próximo. Um rouba o outro e o outro rouba o um. O Fulano e o Cicrano se auto-mutilando financeiramente, para ver quem é o mais exxxperto, quem é o mais “truta”.

Enquanto vou colocar gasolina e preciso ficar atento para ver se vão colocar menos combustível no meu tanque, confiro se o manobrista que me entregou o carro roubou minhas moedas ou deu um rolé com meu carango. Antes deixasse com flanelinhas e pagasse as 20 pilas. Se bem que eu paguei 10 na manobra, tinha mais cinco em moedas, então saí no lucro.

Fico imaginando o seguinte: quando o manobrista tiver que colocar gasolina no seu próprio carro. Os cinco reais que ele pegou de moedas vão ficar mesmo é para o dono do posto que coloca combustível a menos. Aí mais tarde, para vingar alguma coisa que nem sabe o que é, um ladrão, esse assumido, chega, encosta o trabuco no gerente do posto e leva toda a féria do dia, roubada dos consumidores.

O detalhe é que um destes consumidores que levaram o cano da gasosa é mecânico. Ele tinha acabado de levar uma senhora na conversa. Disse que tinha de trocar uma tal bucha, para “dar alinhamento”, não trocou nada e levou quase 20 conto na lábia em cima da mulher. Coitado dele, porque depois que chegou à sua casa, viu que o computador estava “dando pau”. Teve de chamar o técnico. O cara falou que o conserto era 60 reais. Ele sempre cobrava 40, mas como tinha de sair com uma menina, cobrou 20 a mais para passar a perna no mané.

O mesmo cara que levou 20 do vacilão gastando 15 minutos tirando um vírus do computador levou sua garota num trailer de sanduíche. Comprou um x-tudo para ele e nem percebeu que o presunto era apresuntado e que o bacon virou lenda. Exxxperto o dono do trailer, que amanhã marcou visita ao mecânico para alinhar o carro.

É a comunidade viciante. Os “safos” roubam e se gabam. São roubados e recuperam na frente. O ciclo vicioso exxxperto do brasileiro. Vou retroceder a quilometragem do meu carro para vendê-lo, inventar uma raça para meu vira-lata, para faturar um troco maior, colocar nitro no feijão para render mais e vender requeijão como se fosse catupiry. Depois, meu amigo, vou assistir ao Big Brother para ver meus heróis e votar no candidato que mandou tapar um buraco na minha rua, ignorando que se não houvesse corrupção, eles teriam feito um trabalho melhor e o buraco não existiria.

Vou ficar em frente à TV, esperando chegar 2014, para vibrar pelo Brasil na Copa. Afinal, eu idolatro um garoto de 19 anos, craque, que não fuma crack, mas usa um cabelão doidão e joga muuuuito. Ele ganha mais de um milhão por mês e eu não ganharei isso nem na minha vida toda. E daí? Ele é o cara... e eu... eu sou exxxxperto.  

Cachinhos regados

Bastou a Laura saber que se ficasse debaixo da chuva seu cabelo cresceria, para toda hora ir tomar uns pingos em sua cabecinha. E o convite nunca faltava: - “vem também, para seu cabelo crescer”. E as perguntas também não: - “se cair chuva no meu braço, ele cresce também?”. – Não, só crescem os cabelos do braço, Laurita. - E está caindo na grama, ela vai crescer também? – Vai, a grama vai. E se a gente falar bem baixinho, além de a grama crescer, vai se formar uma lagoa. Mas temos de falar baixinho para dar certo. – Bem baixinho assim? – É, bem baixinho assim.

Seus cachinhos já estavam arrastando no chão, iguais aos da Rapunzel, que não tem cachos, mas está dada a licença, e a lagoa já estava sendo formada lá no fundo. O problema é que toda hora a lagoa parava de encher, porque alguém falava alto demais, e, claro, recebia uma apreensão sussurrada, para não atrapalhar a formação. Uma hora, Laura teve de parar de entrar na chuva, porque poderia ficar resfriada. – Mas quero que meu cabelo fique bem grande! – Ele vai ficar. Já foi bem regado, agora é só esperar.

Da mesma grama que crescia e que daqui a pouco seria a base de uma lagoa enorme, porque o silêncio pairava, brotou um limão. Um limão pequeno, mas ostentoso, bonito. Aquele limão nem imaginava o quanto seria querido depois que Laura o achasse. Ela dedicou boa parte de seu tempo dengoso a ele. Mas não deixou de lhe delegar funções. A primeira é que ele servia para deixar as coisas verdes. O coitado do limão foi passado em braços suados e cabeludos, só para ornamentá-los. De uma coisa ele não podia reclamar – de abandono. Isso porque toda vez que ele caía, Laura o procurava até encontrá-lo. Limão feliz...

Entre o limão, cachinhos que teimavam em não crescer e a lagoa que talvez se formava no fundo do quintal, a tarde foi passando vagarosamente. Nem uma incômoda dor na coluna, tirava o prazer pândego de quem já havia tomado umas cervejas e se deliciava, entrando, superficialmente, mas entrando, no mundo infantil. Nem cobras, nem lagartos, só limões, chuva e lagoa, como se estivéssemos num frescor natural impagável, quando na verdade desfrutávamos de um quintal típico da cidade grande.